Onde está o líder e a comunitária em tempos de crise?

Mário Gaudêncio
Mestre em Ciência da Informação (UFPB). Especialista em Gestão Educacional (FIP). Bacharel em Biblioteconomia (UFRN). Bibliotecário (UFERSA). Assessor (PJMP). E-mail: salemario@gmail.com.

Hiara Gaudêncio
Mestranda em Ambiente, Tecnologia e Sociedade (UFERSA). Bacharela em Gestão Ambiental (UERN). Assessora (PJMP). E-mail: hiararuth@gmail.com

1 REFLEXÕES INICIAIS

Conjunturalmente, vivenciamos um cenário onde as lideranças estão sendo colocadas em “xeque-mate”. As nossas referências de representação política, social, educacional, jurídica, religiosa, pastoral e comunitária são cada vez menores e/ou inexpressivas. É por este motivo que vivemos uma busca frenética, alucinada ou incansável por “heróis” para resolver os problemas de um grupo ou povo.

O que mais impressiona é o fato de, sempre procurarmos no outro o “salvador da pátria”, ou seja, aquele líder que surgirá e resolverá “tudo”. Esquecemos nesse contexto que “EU” posso ser protagonista da mudança e da transformação. EU posso e preciso liberar de dentro do amago, do EU interior, o líder que está preso dentro mim. É algo que precisa ser feito e colocado à disposição do outro.

Ao entendermos esta postulação, percebemos que o grande agente transformador do grupo sou EU e não o OUTRO. Se percebermos isso, vamos compreender que a grande mudança que queremos não está longe, pelo contrário, está bem próximo, em nossas mãos. Infelizmente nós nos posicionamos na vida, terceirizando responsabilidades, compromissos e deveres. Parece que fica mais fácil para posteriormente se isentar de possíveis erros que por ventura tendam a ocorrer.

2 BREVE DEFINIÇÃO

A liderança se manifesta a partir da atuação do líder em conjunto com os seus seguidores. O líder é a expressão máxima na condução de um grupo. Ele é o viés motivador de uma ação ou conjunto de políticas que se colocam a disposição das pessoas para melhorar ou transformar uma dada realidade.

Assim, a liderança é uma ação em movimento contínuo, se colocando como uma prática capaz de mudar uma realidade seja ela de dominação, empoderamento ou solidariedade. Entretanto o líder no contexto de uma liderança transformadora precisa permitir levar os seus liderados e colaboradores a outro patamar, o de ruptura com o tradicional e o não representativo.

3 ELEMENTO MOTIVADOR

O maior elemento motivador e transformador de um grupo, comunidade ou Estado Democrático de Direito, somos nós. Por isso a liderança precisa ser alimentada no dia a dia, colocando-nos a disposição da gente e do outro.

Se a ideia do líder vem para “alimentar” uma prática renovadora, rompendo com o ortodoxo, o conservador ou o tradicional, então que seja fomentada essa possibilidade dentro da gente, da nossa família, escola, universidade, trabalho, nas relações afetivas e até nas “boas fofocas” do cotidiano.

4 UM “PUNHADO” DE QUESTIONAMENTOS 

Retomemos a nossa conversa fazendo alguns questionamentos, como: a) Eu me sinto um líder? b) Qual tem sido a minha contribuição no sentido de transformar a realidade com a qual eu estou inserido? c) Em quem eu me inspiro para poder atuar na vida e na comunidade, ou seja, quais são os meus heróis e por quê?

Parece-me que estamos vivendo um período de “trevas” ou no mínimo de limitação ao reconhecimento de pessoas capazes de liderar de forma democrática e participativa ações revolucionárias em benefício do povo. Onde estão os eventos de articulação? As passeatas? As marchas? As mobilizações?

Estas ferramentas de participação são cada vez mais raras e pulverizadas, isso porque em primeiro lugar não existe interesse do poder público pela articulação popular, seja qual for a sua natureza. Em segundo, porque as pessoas que fazem parte da própria comunidade não se interessam, seja por vergonha, medo, “limitação” ou por individualismo.

De maneira contraditória, em temos de crise as pessoas tem se tornado ainda mais individualista e tem deixado de lado a possibilidade de construir uma proposta comum de ajuda mutua com vistas à transformação social. Não entendo o motivo das pessoas não terem entendido ainda que são justamente elas que tem o poder de cobra, acompanhar, reivindicar e mudar a realidade do povo.

É por meio das ações populares que a sociedade tem evoluído e não outra maneira. Ganhar às ruas hoje é muito mais intimidador para o povo do que para os nossos representantes políticos, salvas algumas poucas exceções como as “marchas de junho” em 2013 que inflamaram uma significativa parcela brasileira onde a liderança com viés de coletividade se sobrepunha a bandeiras ou siglas partidárias. Era o povo que iam as ruas, era o povo que se articulava, era o povo que reivindicava.

Mas, infelizmente isso foi um “ponto fora da curva”, pois o sentimento de pertença e transformação se acomodou e os Poderes Constituintes se apropriaram deste cenário atenuando medidas impopulares de gestão. Então quais foram os ganhos reais das “marchas de junho”? As suspensões temporárias do aumento de passagens? A luta por uma constituinte exclusiva para reforma política? A intransigência do Congresso Nacional que tentado desqualificar a mobilização popular? O resultado das eleições de 2014? As medidas de austeridade do governo brasileiro?

5 “E AGORA JOSÉ?”

Hoje, mais do que nunca vivemos em um país de profundas disputas, especialmente porque a “Casa Grande” está indignada por visualizar a ascensão da “Senzala”. O povo que por quase 515 anos sofreu, entendeu que é possível subir de patamar e postular uma nova realidade, contudo, até que ponto a grande massa brasileira está pronta para lutar por igualdade de direitos que por séculos lhe foi negada?

Em face de um Brasil multicultural de grandes contradições humanas, será que é possível dizer que o conhecemos plenamente? Como estamos vendo o Brasil atualmente? Como o Brasil pode avançar com a nossa participação? Efetivamente, a rebeldia popular pode ser um caminho ou pode ser considerado um pretexto para que a corrente conservadora e dominadora tenha elementos suficientes para justiçar um golpe e barrar a consolidação a democracia ratificada pela Carta Magna de 1988?

Parece estarmos vivenciando um momento de muitos porquês e poucas afirmações. Isso se fortalece pelo aprofundamento deturpado de uma parcela significativa da grande mídia que tem apresentado um país destruído, sem rumo e assolado em um mar de lamas. Até que ponto as informações veiculadas no rádio, televisão, jornal e internet são verdades? Estamos formando as nossas opiniões a partir de notícias verdadeiras ou falsas?

Entra jogo o espírito crítico de cada pessoa em analisar, refletir e provocar junto às pessoas de convívio a capacidade de separar o “joio do trigo”. É momento de aguçar a sensibilidade de líder e o poder da liderança.

A liderança transformadora a partir dos princípios da teologia da libertação pode ser um caminho viável para alimentar uma sociedade menos desigual e revolucionária no sentido de não calar diante das forças opressoras que aniquilam os anseios populares.

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