Carta de uma bibliotecária que vê sentindo na estabilidade

escrito pela bibliotecária Suzelayne Eustáquio de Azevedo*
colaboração de Fábio Cordeiro

Sr. Helio Gurovitz, enquanto leitora assídua de sua coluna na Revista Época e do seu blog no G1 gostaria de registrar um esclarecimento acerca do que foi escrito no dia 12 de março do presente ano. O texto denominado “Os privilégios do funcionalismo”, sem dúvida é de uma relevância indiscutível para a sociedade civil, no entanto o Sr. cometeu um grave descuido ao citar bibliotecários e faxineiros enquanto profissões cuja estabilidade “não faz sentido” na Administração Pública, o que revela claramente uma visão equivocada por parte de sua pessoa, não só quanto às categorias supracitadas, mas quanto ao funcionamento do serviço público como um todo.

Que ironia ler eu texto no dia em que se celebra a profissão (12/03), e vê-la citada, segundo o Sr., num rol de profissões que não deveriam ter direito à estabilidade do serviço público.

Para sua curiosidade Sr. Hélio, a citada profissão reconhecida e consolidada, só pode ser exercida por graduados em biblioteconomia (sim, para ser bibliotecário é preciso ter nível superior). Profissão esta, que sem dúvida, foi elementar à formação intelectual que hoje o Sr. possui, o que certamente proporcionou subsídios para que alcançasse a posição de status que atualmente ocupa… ou será que ao longo de seus cinquenta anos o Sr., enquanto jornalista conceituado, jamais frequentou uma biblioteca, mesmo que na infância?

A Biblioteconomia trouxe grandes contribuições para o avanço da Educação, Ciência e Tecnologia no Brasil por meio do suporte ao ensino, pesquisa e extensão. Atualmente continua sendo aparato à produção intelectual no País, inclusive em instituições governamentais, reunindo, organizando e disponibilizando a documentação bibliográfica destas entidades em meio impresso ou eletrônico, incentivando assim, a construção e gestão do conhecimento. Tarefa de alta complexidade que requer conhecimento especializado para, sobretudo, garantir o direito de acesso à informação aos cidadãos (conforme determina o Art. 5º, inciso XIV da Constituição Federal), o que configura um desafio em muitas repartições públicas que sofrem com o “câncer” da corrupção e do ataque à liberdade de expressão que assolam este país.

Além da Ciência e Tecnologia, acredite Sr. Hélio, os bibliotecários prestam outros inúmeros serviços nesses órgãos como atendimento ao setor jurídico, assessoria em comunicação, gestão e fiscalização de contratos, planejamento estratégico, gestão documental e arquitetura de informação. Surpreso?? Deixe-me revelar mais coisas: instituições internacionalmente conhecidas pela sua seriedade, compromisso e credibilidade como a Nasa e a ONU recorrem aos préstimos dos bibliotecários e de outros profissionais em ciência da informação para manter seus repositórios informacionais e conferir o tratamento necessário aos seus registros documentais. Isto, certamente, deve-se ao reconhecimento destes órgãos à real importância do papel do profissional em questão.

Sem falar nos órgãos públicos nos quais os referidos profissionais compõem parcial ou integralmente a área finalística como no caso da Fundação Biblioteca Nacional, instituição centenária, criada ainda no tempo colonial, que incessantemente assume a difícil função de reunir, monitorar e salvaguardar toda a produção bibliográfica brasileira (nosso legado memorial).

O que falar então dos faxineiros?? Acho que nem preciso ressaltar a importância destes em qualquer organização. Certamente, imagino eu, que antes do Sr. tomar o seu café e ler este texto (se é que se dará ao trabalho de lê-lo), alguém limpou e organizou a sua mesa, o banheiro que o Sr. usa, a escada por onde passa, tornando seu ambiente de trabalho salubre, enquanto arrisca a própria saúde e integridade física

Bom… pelo menos aqueles que prestaram concurso público tem um regime que lhes é um pouco mais favorável nesta árdua tarefa de servir aos que muitas vezes os desqualificam. Agora “faz sentido” Sr. Hélio?

O Sr. que é um jornalista tão renomado, ao tratar de tema tão importante deveria avaliar melhor os exemplos que usa, pois, um mestre das palavras deve ter ciência de sua responsabilidade na hora de usá-las para não tirar o foco da mensagem principal, que não era o bibliotecário, mas a estabilidade. Infelizmente o seu comentário acabou causando um tremendo mal-estar em toda uma categoria que poderia até mesmo concordar com seu ponto de vista.

Aos faxineiros e bibliotecários, um brinde a nós! Que trabalhamos honestamente, ainda que alguns não nos achem merecedores de estabilidade.

*Com adaptações
#Bibliotecari@s #Junt@sSomosMaisFortes

 

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