Resenha da obra Paris 1968: as barricadas do desejo

MATOS, O. C. F. Paris 1968: as barricadas do desejo. São Paulo, 1998. Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

 

Neste livro, Matos (1998), irá considerar 6 (seis) aspectos estruturais para basilar a sua escrita histórico-sociológica, conforme temos: a) Maio de 1968: poesia e revolução; b) Pour une planète plus bleue (slogan do movimento); c) Uma internacional estudantil; d) Os antecedentes; e) A primavera do assalto ao céu; f) Maio: revolta ou revolução. A Obra por Olgaria C. F. Matos escrita por se dá tentando analisar os fatos e contexto com as quais foram inseridas as manifestações ocorreram mundialmente a partir do movimento “Paris 1968”.

Sinteticamente a obra nos conduz a perceber que, havia uma insatisfação estudantil, especialmente, universitária quando a garantia de direitos oferecidos a sociedade. Observava-se que essa insatisfação se fortalecia por ter evidenciado um cenário onde os representantes populares, sejam eles comunistas, socialistas e/ou capitalistas não conseguiam mais visualizar as reais demandas da população francesa, fazendo com que surgisse uma fissura social e política que sedimentaria o ambiente propício que se fossem lançadas dúvidas, questionamentos e manifestações. O berço dos estopins são as universidades, dentre elas, está a tradicional Sorbonne e aqueles que a representavam. Reconhecida como um símbolo estratégico para cultura francesa, segundo os estudantes, esta já não falava mais a língua deles, tão pouco atendia os anseios dos universitários, seja na própria instituição ou fora dela, quando os mesmos eram colocados a prova no mercado de trabalho.

Em virtude de os jovens universitários não vislumbrarem perspectiva de mudança, seja para atender as reformas estruturantes necessárias ou pelas mudanças culturais quanto às liberdades de expressão, a classe estudantil inicia um processo de alargamento do debate político baseado nas demandas sociais que o governo não conseguia ou não queria visualizar.

Esse inquietamento educacional, é antagonicamente construído em um contexto de relativa satisfação econômica e social, e que por esse motivo assustou a comunidade representativa partidária, tenha ela um viés ideológico direcionado à direita ou a esquerda. Dois outros aspectos relevantes e que normalmente estão diretamente relacionados são adicionados a esta realidade, mas que não foi a situação referencial à primavera francesa. Em primeiro lugar, trata que este momento não é essencialmente um processo fruto da luta de classes, condição singular ao processo de disputa pela garantia de direitos, historicamente tratado e evidenciado nas disputas na relação entre burguesia e proletariado. A segunda, que deriva da anterior, trata da não participação e envolvimento dos trabalhadores e dos partidos de esquerda no âmbito da luta estudantil, salvas as iniciativas excepcionais dos jovens trabalhadores que entenderam a importância da luta pela garantia de direitos em torno de temas que para muitos não eram considerados relevantes, e consequentemente silenciados pelo governo aos olhos da grande massa populacional e que em certa medida precisava ser descortinado pela juventude universitária e que a partir dela, estas pautas em maior ou menor proporção começam a ser aceitas e implantadas por diversos grupos estudantis em países da Europa, América do Norte e América do Sul. Temas como sexualidade e liberdade de expressão, antes relegados a marginalidade, começam a fazer parte da agenda de discussão social.

Apesar da luta travada na primavera Parisiense, o movimento era essencialmente ideológico, revelando uma mobilização horizontal, espontânea e orgânica, basilada em maior ou menor escala no Materialismo Histórico Dialético. Mesmo assim, o Maio de 1968, a partir da França, conseguiu revelar diversas lideranças políticas que emergiram a partir da “queda dos muros universitários”, dentre eles está o Franco-Alemão Daniel Cohn Bendit, atualmente deputado europeu e que mesmo sendo um refugiado alemão por sua condição judia, fez frente ao regime vigente. Este fato por sua vez, o fez retornar a Alemanha ainda no período da guerra fria.

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Atrelado ao que pensada o movimento estudantil, um dos fatores positivos que se percebeu foi a forma como as informações produzidas eram comunicadas, os grafites e os muros se revelaram como tecnologias diferenciais e significantes para apresentar as intenções do movimento e canalizar os seus discursos. Isso possibilitaria além de emitir juízo de valor aos pensamentos dos manifestantes, possibilitou tornar as suas intenções mais próximas da sociedade. Negativamente, um aspecto de desestabilização percebido é que não se tinha uma estrutura hierárquica e tática para articular melhor as formas de contrapor-se ao Poder legitimado, especialmente porque em meio as batalhas, piquetes e barricadas, o setor sindical e os partidos de esquerda, setores da sociedade de que se esperava um suposto apoio, de forma inesperada não ocorrera. Um dos possíveis motivos, talvez tenha sido possíveis acordos trabalhistas já fechados ou em fase de serem ratificados. Uma outra possibilidade, é que em virtude de suas visões e posturas unidimensionais estes setores que supostamente deveriam defender os interesses do povo em relação ao Estado, tenham ficado presos e/ou limitados apenas a bandeiras como o “aumento do consumo”, “redução da carga horária” e “ascensão ao poder”. A própria esquerda estava submersa e envolta ao jogo e as armadinhas do capitalismo global.

Portanto, é possível minimamente concluir que as manifestações Parisienses tentam fazer valer a ideia etimológica de “Democracia”, quanto “governo que emana do povo” e “Política”, como a “arte da busca pelo bem comum”. Fez a sociedade francesa perceber que o seu núcleo de representação política tinha se descolado do povo, das bases e não conseguia mais ver o que de fato eram as demandas sociais que surgiam em meio ao processo de reconstrução estatal e da promoção da modernização do modo de produção capitalista que ocorrera a partir do período pós-guerra, a guerra fria. Os estudantes conseguiram mostrar este momento foi um momento de revolta e revolução. Revolta porque era situacional e angustiava o descaso frente a problemas que não tinham respostas. Para isso era preciso lutar, ir as ruas, marchar para fazer ecoar o sentimento incompreensão. Revolução porque ela precisa ocorrer diariamente dentro de cada um, independentemente da bandeira de luta. É algo que se faz de dentro para fora, conforme os estudantes demonstravam. Era a luta pela liberdade de expressão das mais diversas maneiras, era o direito de acesso e de garantias ao modo de viver, se reunir, trabalhar e isso nem o comunismo ortodoxo tão pouco o capitalismo de consumo poderia possibilitar. Buscava-se um outro modelo de sociedade, novas utopias, um outro contrato social.

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Fonte: Domínio público via https://pixabay.com (2018).

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

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