Resenha da obra a teoria crítica: ontem e hoje

FREITAG, Barbara. A Teoria crítica: ontem e hoje. São Paulo: Brasiliense, 2004. Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

A Obra retrata os aspectos históricos, teóricos e metodológicos com os quais a Teoria Crítica fora criada. Observa ainda que seu olhar investigativo se debruça por um lado, valorizando em certa medida o Materialismo Dialético Histórico e por outro refutando a forma como era empregado e a quem servia e se destinava o Positivismo.

O livro escrito por Barbara Freitag, reimpresso em 2004, estruturalmente traz um recorte orientado às três primeiras seções, respectivamente, a introdução, o histórico da Escola de Frankfurt e o conteúdo programático da teoria crítica.

Na introdução, a autora constrói as bases iniciais para uma gênese que articula o objeto da Teoria Crítica a partir uma conjuntura de profundas transformações históricas, políticas, culturais científicas.

Em seguida, ao considerar o histórico da Escola de Frankfurt, traz ao centro do debate os aspectos inerentes a “criação do Institut fuer Sozialforschung (1922-1932)”, o “período da emigração para os Estados Unidos (1933-1950)”, a reconstrução do Institut fuer Sozialforschung em Frankfurt (1950-1970)” e o “renascimento e a superação da teoria crítica”.

Com a criação do Institut fuer Sozialforschung, Freitag (2004, p. 14), se observa que a “grande preocupação de Horkheimer nesses primeiros anos de existência e funcionamento do Instituto” era de elaborar “o esboço de uma teoria materialista, social-psicológica dos processos históricos societários” (SCHMIDT, 1980, p. 27 apud FREITAG, 2004, p. 14). Via-se uma busca por uma teoria que fosse capaz de ir além de um pensamento unidimensional e geral pautado pelo positivismo de Auguste Comte e posteriormente, fortalecido por Karl Popper. Desta forma, Horkheimer “imaginava reorientar a reflexão filosófica da época, partindo de um patamar abstrato para um nível mais concreto que não se confundir-se, no entanto, com o puro ativismo da luta partidária”, assim como é revelado por (FREITAG, 2004, p. 15).

Contudo, a fase de criação sofreu profundos impactos a partir da política totalitária nazista Alemã entre o período Entreguerras e o pós-guerra, também conhecido como guerra fria. Neste sentido, para que o Instituto continue funcionando, seria necessário iniciar um processo de emigração, que ocorre através dos Estados Unidos. Mesmo com a mudança, o Instituto continuaria sendo financiado com recursos privados advindos da Argentina. Foi nesta fase que Horkheimer e Adorno escreveram a obra “A Dialética do Esclarecimento em 1947”, mas também foi neste mesmo período que intelectuais como Walter Benjamin e Maurice Halbwachs perderam a vida pelas mesmas razões com as quais houve a mudança geográfica do Instituto, ou seja, o nazismo. Nesta fase, também são revistos alguns posicionamentos teóricos, dentre eles, o abandono aos paradigmas do materialismo histórico e a desconstrução da ideia de “razão” estabelecido por Kant. Este será um “divisor de águas” à Teoria Crítica, que nesse entremeio o Instituto retorna à Alemanha para iniciar o seu processo de reconstrução, inclusive retomando o seu indiciário ao que era denominado de Escola de Frankfurt. A escola se defronta com novos desafios, por um lado, dispor de um número reduzido de pesquisadores, por outro, de responder a novas demandas e reflexões investigativas como a “questão do autoritarismo e do antissemitismo” (FREITAG, 2004, p. 23). Nesse mesmo período eclodem em grandes universidades um “novo potencial político de uma geração estudantil não conformista” (FREITAG, 2004, p. 23). Este cenário tem como epicentro, maio na “Paris 1968” conforme é relatado por (MATOS, 1998) e que inclusive vai de encontro ao Instituto em Frankfurt fazendo com que Adorno chamasse a polícia no momento em que os estudantes ameaçaram invadir. Segundo a autora, os estudantes “defendiam a transformação radical da sociedade capitalista […] tomando como ponto de partida a democratização da própria universidade” (FREITAG, 2004, p. 24).

Por meio desse contexto e no entendimento da autora, “isso gerou desilusão e incompreensão de ambas as partes” (FREITAG, 2004) que mais tarde, “acalmados os ânimos”, simbolicamente é iniciado o processo de renascimento e a superação da Teoria Crítica, que para Freitag (2002, p. 27), “se distinguem em duas tendências: uma, representada por Tiedemann e A. Schmidt, que consiste em preservar o pensamento de Benjamin, Horkheimer, Adorno e em parte Marcuse […] e outra, seguida por Habermas, Wellmer, Buerger e outros, que consiste em prosseguir de modo original e criador o pensamento dos mestres, não hesitando em criticá-lo e superá-los”. Considerando estes últimos aspectos, Habermas ao criar a Teoria da Ação Comunicativa, eleva-se a condição de “o pensador mais produtivo de uma nova versão da teoria crítica daquele (sic) momento” (FREITAG, 2002, p. 28-29). Contudo, o “renascimento da teoria crítica não é devido exclusivamente aos trabalhos de A. Schmidt, R. Tiedemann e J. Habermas. Há toda uma geração de jovens […] que têm usado a teorização dos frankfurtianos para novas reflexões e buscas de apropriação ou superação de seu pensamento, conforme explicou (FREITAG, 2002, p. 29).

Na sequência a autora explorou os princípios que fortalecem, consolidam e diferenciam a Teoria Crítica de outras correntes de pensamento, especialmente do Positivismo. Isso é viabilizado ao passo que são tecidas as teias de articulação do conteúdo programático da Crítica enquanto fundamento diferencial desta Teoria que sugere um Novo Paradigma ao campo da ciência, especialmente por provocar um outro olhar ao que é estabelecido como “razão”. A reflexão privilegiou a “dialética da razão e a crítica da ciência”. Estas estão divididas em três momentos fundamentais. Ao que tange o primeiro momento, se deu para fazer uma contraposição entre a teoria tradicional (cartesianismo) e a teoria crítica (marxismo). Sugere-se que seja denunciado a exclusividade do “caráter sistêmico e conservador do primeiro” em relação ao segundo, que busca “enfaticamente a dimensão humanística, emancipatória” (FREITAG, 2002, p. 37). Na prática, ao “confrontar o pensamento de Descartes e Marx, Horkheimer não está querendo invalidar um em favor do outro”, ele esclarece que busca “englobar o primeiro no segundo” (FREITAG, 2002, p. 37). A Teoria Crítica sempre partirá de algo que já foi construído, elaborado. Assim, a “teoria crítica começa, pois, com uma ideia relativamente geral […] (FREITAG, 2002, p. 39). Mesmo considerando estes aspectos como complementares, Horkheimer faz uma avaliação crítica em torno dos “equívocos” da própria teoria marxista e chega as seguintes questões, conforme são expressados por Freitag (2002, p. 40), “1) a tese da proletarização progressiva da classe operária; 2) a tese das crises cíclicas do capitalismo; 3) a esperança de Marx de que a justiça poderia se realizar simultaneamente com a liberdade revelou-se ilusória”, mas “apesar da renúncia a certas teses do materialismo histórico, Horkheimer sustenta a necessidade da sobrevivência da teoria crítica. Ela deve visar [..] uma humanidade emancipada”. Ao que se refere ao segundo momento, a questão se dá no embate ente Popper e Adorno, onde primeiro defendia o positivismo (derivado do cartesianismo) e o segundo a dialética (derivado da teoria crítica). Com isso, instaura-se um impasse que não favorece o dialogo conforme buscava Horkheimer no momento anterior. Se para Popper o “sujeito do conhecimento não se envolve com seu objeto, e deve respeitar (sic) o princípio da neutralidade das ciências, constatando ‘o que é’ e silenciando, enquanto cientista, face ao que poderia ou deveria ser” e que consequentemente os “juízos de valor não fazem parte do arcabouço científico do pesquisador” (FREITAG, 2002, p. 45), para Adorno o processo deve ser encarado de maneira diferente, ou seja, é preciso que “a sociologia seja concebida como dialética e crítica” e que ela não possa “deixar de guiar-se pela perspectiva do todo, ainda quando estuda um objeto particular, vendo esse todo não como sistema estabelecido, mas como produto histórico do passado e como aspiração de realização no futuro” (FREITAG, 2002, p. 47). Daí surge a obra Dialética Negativa, escrita por Adorno em 1970, que “consistiria no esforço permanente de evitar as falsas sínteses, de desconfiar de toda e qualquer proposta definitiva para solução de problemas, de rejeição de toda visão sistêmica, totalizante da sociedade” (FREITAG, 2002, p. 48), assim como estabelecia de forma contrária o positivismo de sugerido por Popper. Quanto ao que remete o terceiro momento, será considerado o embate entre Habermas e Luhmann. Habermas ao propor uma teoria da sociedade, se aproximará da Teoria Crítica, entretanto, quando Luhmann sugere uma teoria sistêmica, automaticamente dialogará com o Positivismo. Dessa forma, Habermas buscou “elaborar uma ‘nova’ teoria da sociedade como alternativa à teoria sistêmica, representada por Luhmann” (FREITAG, 2002, p. 53). Nesse contexto, “Habermas critica Luhmann, mostrando e confirmando que a incompatibilidade entre as duas formas sistêmicas, e ressalta a dificuldade de utilizar de forma produtiva o conceitual cibernético para sistemas socioculturais (sic) ” (FREITAG, 2002, p. 54). Essas divergências também avançam em outros cenários, que “em última instância”, ocorre “em torno da concepção e do surgimento de significados”. Tomando por base esta concepção, Habermas se mostra “convencido de que o conceito de sistema e o de informação são incompatíveis com uma análise efetiva dos fenômenos sociais”. Ao considerar as facetas deste embate teórico-filosófico, Habermas responderá a Luhmann em definitivo através da Teoria da Ação Comunicativa, onde a ideia central de é a de “elaborar um novo conceito de racionalidade comunicativa, propondo um novo paradigma para a discussão sociológica”, incluindo inclusive “um novo conceito de razão […]. A razão comunicativa […]”. O diferencial da razão comunicativa é ela “no ponto de intersecção de três mundos: o mundo objetivo das coisas, o mundo social das normas e o mundo subjetivo dos afetos” (FREITAG, 2002, p. 59-61). Portanto, a Teoria da Ação Comunicativa “permite reconstruir os processos evolutivos das sociedades do passado ao presente, na medida em que fornece um conceitual que permite dar conta da complexidade e da contradição inerente a nossas modernas sociedades” (FREITAG, 2002, p. 63).

Ao buscar fechar o pensamento em relação ao recorte da obra “A Teoria crítica: ontem e hoje” escrito por Barbara Freitag, é possível considerar que apesar da Escola de Frankfurt e através dela, da Teoria Crítica ao longo da história tem vivenciado constantes mutações, seja pelas mudanças em virtude totalitarismo alemão, pela perda de importantes teóricos, pela necessidade adaptação, avaliação ou autocrítica ou pela sua mudança paradigmática, o importante é que ela não apenas sobreviveu, mas fez ecoar suas reflexões e debates acadêmicos pelas mais diversas partes do mundo, influenciando variadas universidades e cientistas que buscam cotidianamente entender a complexidade da sociedade a partir de métodos ou abordagens capazes de provocar no pesquisador o sentimento contínuo pelo entendimento do todo, em todas as dimensões, sempre considerando que não existe verdade incondicional e que tudo na relação sujeito e objeto precisa ser considerado e respeitado em todas as suas particularidades, sejam elas históricas, culturais, sociais, econômicas ou informacionais.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

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