Resenha da obra o que é pós-moderno

SANTOS, J. F. dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Coleção Primeiros Passos, 165). Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

IMG_6130A obra escrita por Jair Ferreira dos Santos tem a sua primeira edição escrita em 1986. Quanto a esta atual edição, a mesma foi dividida em sete seções capitulares abordados sob definições peculiarmente metafóricas, considerando as seguintes questões: 1) Vem comigo que no caminho eu explico; 2) Do boom ao bit ao blip; 3) Do sacrossanto não ao zero patafísico; 4) Anarquistas em nuliverso; 5) Adeus às ilusões; 6) A massa fria com narciso no trono; 7) Demônio terminal e anjo anunciador.

A primeira seção capitular irá considerar como relevantes os seguintes aspectos: a) Caçando o fantasma; b) Bye, bye, real; c) Breve babado teórico; d) O pós contém um des. O autor considerou aqui, que o pós-modernismo como um fantasma ao moderno. Depreende-se que provavelmente esta observação se dê por perceber que a ideia de pós-modernidade tenha surgido para em virtude de uma possível crise epistemológica e cultural causada pela modernidade, o positivismo e o capitalismo industrial, por não conseguirem mais responder as demandas lançadas pela sociedade. Nesse sentido o autor considerou que o “pós-modernismo é um nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950” (SANTOS, 1988, p. 7). Coincidentemente, é esta época é denominada de revolução técnica, científica e informacional, onde os princípios fundamentais do capitalismo neoliberal são aprofundados através das tecnologias de informação e comunicação, tendo como horizonte fim a sociedade de consumo e a indústria cultural. Assim, “o pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida […] na ausência de valores e de sentido para a vida […]”, entregando-se ao “consumo e ao individualismo exacerbado” (SANTOS, 1988, p. 8; 18). Percebendo este cenário, torna-se essência do modernismo “apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência”. Gera-se deste modo uma sociedade baseada no “espetáculo” e na “simulação” (SANTOS, 1988, p. 12-13). Entretanto, o autor chama a atenção para que, se existe um fenômeno que cause transformações na sociedade, independentemente dos avanços tecnológicos, esta é a linguagem, e ela como aspecto constituinte do indivíduo, ou seja, do homem. É através da linguagem que se “[…] dá forma tanto ao nosso mundo […], quanto ao nosso pensamento […]”. A passo que não se observa esses fatores, a pós-modernidade se tornará “frágil, sua identidade, evanesce” (SANTOS, 1988, p. 15). É preciso visualizar a pós-modernidade como produto de transformação e hibridismo de uma linguagem potencializada por repertório de signos que representam e influenciam o contexto com o qual as transformações estão ocorrendo pelo e com o homem. Portanto, o pós-modernismo é algo “inacabado, sem definição precisa, […]” que para “dor dos corações dogmáticos, […] por enquanto flutua no indecidível” (SANTOS, 1988, p. 19).

O segundo capítulo abordará olhares a partir dos aspectos: a) Apocalipse, Uau!; b) A dama de ferro; c) Rede pensante, gandaia global; d) Cá na Belíndia. O pós-modernismo, simbolicamente parte da explosão atômica ocorrida no Japão da II Guerra Mundial (1945) e historicamente a partir de 1950, onde, concretamente a “imagem da civilização moderna industrial, assentada na produção e na máquina, iria se modificar desde os anos 50, ao rumar para sociedade pós-industrial, mobilizada pelo consumo e a informação” (SANTOS, 1988, p. 23). A tecnociência passa a dar o tom das discussões, passando a influenciar a vida das pessoas, e é em virtude disso que o “ambiente pós-moderno é povoado pela cibernética, a robótica […]” e outros, promovendo uma desmaterialização e uma pulverização do mundo (SANTOS, 1988). Nesse contexto, o “indivíduo na condição pós-moderna é um sujeito blip, alguém submetido a um bombardeio maciço e aleatório de informações parcelares, que nunca formam um todo, e com importantes efeitos culturais, sociais e políticos”. O indivíduo torna-se influenciável a “um show constante de estímulos desconexos onde as vedetes são o design, a moda, a publicidade, os meios de comunicação” gerando “circuito informação-estetização-erotização-personalização do cotidiano […]”. Assim, na pós-modernidade “só há revolução no cotidiano” (SANTOS, 1988, p. 27-29). Tudo se torna flexível, fazendo inclusive com que o signo pós-moderno favoreça o debate de temas que antes eram silenciados como o da sexualidade.

Ao terceiro capítulo, o autor realizou a sua análise pontuando questões face as questões de: a) Merda aos museus, abaixo o luar; b) O alegre desbundar; c) Escrituras exóticas, escribas excêntricos; d) Tô in, tô out. Aqui, abre-se o debate considerando uma modernidade em crise, que não consegue mais responder as demandas lançadas pela sociedade pós 1950. Terá como elemento motivador a arte, que com o pós-modernismo surge como arte pop, também vista como antiarte tendo como fator diferenciador do que já vinha sendo historicamente pela cultura modernista o fato de ser “lançada nas ruas com outras linguagens (sic), assimilável pelo público: os signos e objetos de massa”, com isso a antiarte passa a ser vista como a “desestetização e a desdefinição da arte” (SANTOS, 1988, p. 36-37). Ou seja, é claro movimento de ruptura ao que que preconcebido ao entendimento que se tinha de arte. Esta nova forma de fazer arte, se apresenta em espaços que antes eram inimagináveis. Daí a antiarte irá trabalhar “sobre a arte dos ilustradores de revistas, publicitários e designers, e acaba sendo uma ponte entre a arte culta e a arte de massa; pela singularização do banal”. Com isso “Elite e massa se fundem na antiarte” (SANTOS, 1988, p. 37). Consolida-se nesse contexto um cenário ideal à indústria cultural, ao promover a arte de maneira articulada a dinâmica da sociedade de consumo. A arte rompe as barreiras dos museus, pinacotecas, bibliotecas, teatros. Ela agora se apresenta de forma “sorrateira” a partir da televisão, do rádio, etc. mostrando-se como uma invenção participativa, pois segundo Santos (1988), o público reage se envolvendo de maneira sensorial e corporal. Influenciada por esta forma artística da pós-modernidade, a literatura busca caminhar nessa mesma perspectiva, tendenciando a valorizar “o pastiche, a paródia, o uso de formas gastas […] e de massa”. Vê-se um anacronismo profundo entre os fundamentos modernos e pós-modernos, tendo em vista a sua singularização.

Seguindo o debate em torno dos princípios que fundamentam a pós-modernidade, o quarto capítulo abordará olhares a partir de aspectos como: a) Desordem e Pangresso; b) Pau de Bauhaus; c) Pintando/esculpindo o sete no pedaço; d) O real vira hiper-real; e) Menos é mais; f) Pensar, espectador, pensar; g) Ambientes: assim na terra como no céu; h) Anarquistas no agito – happenings, processos, performances; i) Novos bichos – a geração 80; j) O bode entrópico; k) Absurdetes americanas ou “Foda-se o Dia das Mães”; l) Cerebráticos franceses ou o romance morto pela masturbação; m) Back to Belíndia; n) No som, no corpo, na cena, no cinema; o) Bit balanço. Neste momento o autor da obra dará continuidade as reflexões em torno do pós-modernismo ainda tomando por base a ideia de antiarte. Agora, a antiarte será formalizada como algo que “não apresenta propostas definidas, nem coerência, nem linha evolutiva”. Isso fará o leitor depreender que está se propondo onde a arte pós-moderna é concebida como uma manifestação “Desestetizada, desdefinida, desmaterializada, […]” (SANTOS, 1988, p. 43; 52). Partindo desse princípio tudo pode ser arte e ela pode estar em qualquer lugar. Assim, segundo Santos (1988, p. 52), ela “utiliza a rua, a galeria, pessoas e objetos que estão na própria realidade para desencadear um acontecimento criativo”. Influenciados por estes princípios, diversas outras manifestações de arte alinham-se ao que se propondo o pensamento pós-moderno. Na literatura, abre-se espaço para ser “marginal, diluidora, anticultural […]”. São textos “espontâneos, mal-acabados, irônicos, em linguagem coloquial, que falam do mundo imediato […]. Na música, ele assume formas diversas. […] a dança […] põe no tablado até mesmo o grotesco, a feiúra […]. no teatro, as experiências mais chocantes começam com o Living Theater […]. não tem texto nem enredo, só corpos a imitar no palco fenômenos […]. No cinema, […] com altos efeitos especiais, corre solta a nostalgia acoplada à ficção científica. Reina o ecletismo […] e o pastiche” (SANTOS, 1988, p. 65-69). Portanto, a arte pós-moderna “Abala preconceitos, põe abaixo o muro entre arte culta e de massa, rompe as bandeiras entre os gêneros, […]”. Sugere-se então, algo totalmente desregulado onde o próprio mercado, representado aqui pela indústria cultural e o indivíduo sejam os filtros frente a esta fértil desordem de múltiplos estilos.

O quinto capítulo observará os seguintes aspectos: a) O fliperama do nada; b) Viver não é sobreviver ou o profeta de Walk-man; c) Abaixo o Ocidente; d) Marx & Freud Ilimitada. O autor abrirá o debate considerando que o período pós-moderno tem contribuído para desconstruir o discurso da modernidade. Não no sentido destruir, mas percebendo a possibilidade de revisão, crítica e/ou evolução à crise gerada pelo positivismo do período industrial. Esta crise, de caráter cultural, se pensada a sociedade e epistemológica, se considerada a ciência, abre uma fissura sem precedentes ao em seguida seria considera revolução técnica, científica e informacional. Nesse entremeio a consolidação da pós-modernidade, existia um cenário de descredito ou dúvida a que caminho a sociedade pós-guerra iria rumar, dadas as consequências dos conflitos entre as nações. Havia niilismo que exacerbado que fazia com as pessoas vivenciassem um anacronismo crônico, tendo em vista o que se vinham preconizando para a sociedade da época, mesmo percebendo que o capitalismo neoliberal se fortalecia, se consolidava a corrida aeroespacial e as transnacionais rompiam os muros imaginários de suas bases. Parece que tudo estava fora do lugar. O modelo de produção capitalista ou mesmo os resquícios do socialismo stalinista que se apresentavam, não respondia mais as demandas da sociedade. Em virtude dessa “falta de valores para agir, descrença em um sentido para existência” (SANTOS, 1988, p. 72), a pós-modernidade se apresenta. No entanto, os valores e princípios propostos pela pós-modernidade, em certa medida não concretiza, inclusive de “novo iluminismo” (SERRA, 1998). Na verdade, o que se tem de concreto é o fato da “tecnociência invadir o cotidiano com mil artefatos e serviços, mas não oferece nenhum valor moral além do hedonismo consumista” (SANTOS, 1988, p. 73). Com “decadência acelerada” da modernidade industrial, chega-se a inferir que de alguma forma “a arte seria o fio condutor para um novo estilo de vida”, que de repente pudesse propor novas práticas culturais no contexto de uma indústria cultural que se fortalecia cotidianamente. Do ponto de vista da ciência, buscava-se um novo logos (SANTOS, 1988), uma nova razão para que se pudesse rever práticas ainda hegemônicas oriundas do positivismo. Nessa mesma linha de pensamento, Santos (1988) expressa a partir do Lyotard, que influenciado por Marx e Freud, conclui em “A Condição Pós-Moderna” que esta fase da história não está mais preocupada com a verdade, mas sim com a melhor performance, o melhor resultado.

Ao que tange o sexto capítulo é possível observar os seguintes aspectos: a) Clip-extravagância; b) A massa não é mais aquela; c) O vazio cintilante; d) Eu me amo, eu me amo, eu não consigo viver sem mim. Aqui, o autor irá tocar em temas muito sensíveis e delicados ao contexto da pós-modernidade. Em primeira instância a obra tenta entender a forma como a sociedade de consumo se organiza. É possível compreender que é por meio da ideia de uma competividade construída sob o lastro de um individualismo narcisista que o consumismo se fortalece. Não se pode esquecer de mencionar que este modelo se torna ainda mais forte quando alia o poder da indústria cultural e a falta impressão estar bem informado pelos meios de comunicação de massa. Este cenário aliado a um Estado condescendente, ao sistema neoliberal, permite que a população tenha sua vida social programada nos seus menores detalhes (SANTOS, 1988). Se por um lado, os princípios indiciários da pós-modernidade buscavam questionar o sistema com vistas uma democracia ativa e uma emancipação cidadã, por outro, o próprio indivíduo pós-moderno é tragado por um jogo personalizado de bens e serviços tornando-se um instrumento manipulável. Este cenário contribui para haja um descolamento da sociedade frente ao seria direito coletivo, fazendo com o olhar narcisista contribua para uma desmobilização popular em relação as grandes pautas. Com isso, Santos (1988) observa que o “individualismo exacerbado está conduzindo à desmobilização e à despolitização das sociedades avançadas. Saturada de informação e serviços, a massa começa a dar uma banana para as coisas públicas”. Isto é aprofundado com a deserção social dos espaços de participação, sejam elas na família, política ou conforme explica Santos (1988). Com o apelo provocado pela mídia de massa, tem-se um ambiente aprofundado, provocando e promovendo um processo de espetacularização, seja qual for o espaço, tradicional ou virtual. Nesse jogo da midiático, a “espetacularização converte a vida em um show contínuo e as pessoas em espectadores permanentes”. Cria-se assim, uma hiper-realidade, conforme explica (SANTOS, 1988, p. 96), sempre com vistas a sedução, ao encantamento artificial (SANTOS, 1988). Com a pós-modernidade produziu um cidadão “confuso, indefinido, plural, feito de retalhos que não se fundem num todo” (SANTOS, 1988, p. 104).

No caso do sétimo e último capítulo, Jair Ferreira dos Santos irá apresentar informações em torno do seguinte aspecto: a) e, e, e, e, e, e, e. Nesse momento, o autor tenta emitir um desfecho ao que vinha sendo apresentado e refletido como pós-modernidade. Aqui, Santos (1988, p. 106) observa que neste cenário se tem “o cotidiano povoado pela tecnociência […] em bens e serviços para o indivíduo consumir […] onde é importante o papel dos modelos gerados pela publicidade e os mass media”. Vê-se claramente que o modelo pós-industrial impulsionado pela revolução técnica, científica e informacional, levanta como prioridade básica para sua razão de existir, a sociedade de consumo e a indústria cultural. Tudo irá passar por esses dois marcos “desenvolvimentistas”, inclusive a forma de governar e fazer política, seja, em micro ou macroestruturas. Estes fatos fazem com que o niilismo cultural continue presente, ocasionando “desencanto, desordem, descrença, deserto” (SANTOS, 1988, p. 108). Dessa forma, abre-se margem para ausência de controle social e democracia ativa, permitindo que a “tecnociência, inclusive com seus meios poderosos de simulação, estejam alterando as formas humanas de pensamento, percepção, tempo e espaço” (SANTOS, 1988, p. 109-110). Com as memórias coletivas são esfaceladas, a aldeia global fica “sem identidade, hierarquias no chão, estilos misturados, a pós-modernidade” é tudo e é nada ao mesmo tempo, de uma herança mal construída, onde a modernidade ficou líquida (BAUMAN, 2014), sem nada para se amparar.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

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