Resenha da obra a informação como utopia

SERRA, J. P. A Informação como utopia. Covilhã: Universidade da Beira Interior, 1998. (Série Estudos em Comunicação). Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

A Obra escrita por J. P. Serra em 1998, busca refletir a ideia de “informação” como possibilidade e condição “utópica”. Para facilitar a abertura desse debate, o autor se debruça em cinco pilares fundamentais, sendo eles: 1) A Tecnociência da utopia à ideologia; 2) Um novo paradigma da Ciência e da Técnica; 3) Sociedade da informação, ideologia e utopia; 4) A “biblioteca universal” e a partilha do saber; 5) As comunidades virtuais e a partilha do poder.

No primeiro capítulo, cuja a busca é a de refletir “a tecnociência da utopia à ideologia”, o autor levanta algumas questões fundamentais como: a) A “utopia científico-tecnológica”; A “face equívoca da sociedade industrial”; A “tecnologia e a ciência como ‘ideologia’”. Aqui, é possível observar que o lastro central deste capítulo é o modernismo e sua relação o modo de produção industrial alicerçado pela utopia iluminista, pelo pensamento cartesiano e da corrente filosófica positivista. Contudo, a partir do período pós-guerra evidencia-se uma série de transformação sociais, econômicas e culturais que impacta diretamente neste paradigma dominante (SOUSA SANTOS, 2010). Crises epistemológicas são instauradas, por ser entendido que o positivismo não consegue mais responder as demandas de uma forma de pensar baseada uma nova necessidade emancipatória. Mesmo não alcançando em sua plenitude esta busca utópica de liberdade, a fase industrial produz um certo sentimento de “bem-estar”, fazendo com que a procura pela “revolução do sistema capitalista torne-se obsoleta e indesejada pelos próprios explorados”, proporcionando espaços de “catástrofe” e “alienação” conforme explica Serra (1998, p. 58; 66). Se por um lado busca-se a liberdade utópico, por outro, fortalece-se o controle e vigilância, seja velada ou explicita. Por fim, é nesta mesma conjuntura que inflasse marcas ideológicas e democráticas, que em sua essência, serão reveladoras de uma ideologia a favor do mercado.

Ao que tange o segundo capítulo, que tem como temática “um novo paradigma da Ciência e da Técnica”, Serra (1998) busca abordar os aspectos inerentes: a) A “diversidade e a complementaridade dos saberes”; b) O “controle democrático da ciência e da tecnologia”; c) O “carácter retórico-argumentativo do saber”; d) A “sociedade da informação e as novas condições discursivas”. Neste, tendo em vista o ocorrera no capítulo anterior, Serra (1998) irá retomar a discussão sobre a crise epistemológica com a qual o modelo de produção industrial e ciência e a tecnologia estão diretamente atrelados. Mostra que uma saída ao cenário instalado de “crise absoluta” (SERRA, 1998, p. 68), pode se dá através do que Lyotard (2011) chama de “pós-modernidade. Esta por sua vez poderá ser potencializada e viabilizada teoricamente por Habermas, ao qual chama de “Teoria da Ação Comunicativa” conforme menciona Serra (1998), pois, o modelo de sociedade emerge das transformações que ocorrem no período da guerra fria e se dá baseado nas tecnologias de informação e comunicação. Ao fazer isso, automaticamente rompe-se com a razão instrumental, presente no positivismo moderno, abrindo espaço para uma razão dialética, muito mais pragmática e semântica, onde o saber possa ser representativo a partir das mais diversas percepções científicas. Depreende-se com este capítulo que há então a busca por um novo iluminismo, agora sob uma condição pós-moderna Lyotard (2011), valorizando um paradigma emergente (SOUSA SANTOS, 2010) e reconhecendo que o atual modelo de sociedade está cada vez mais vinculado a uma modernidade líquida (BAUMAN, 2014) e que se satisfaz mais com um único tipo de conhecimento, dito “universal”. Busca-se agora um saber baseado na complexidade (MORIN, 2015), para de fato permitir a viabilização de uma sociedade da informação concilie os avanços deixados pelo modernismo para consolidação de uma pós-modernidade democrática e sem regulação ideológica.

Ao que se refere o capítulo três, Serra (1998) traz à tona o debate sobre a “sociedade da informação, ideologia e utopia”, centrando o olhar para: a) Do “fim da ideologia a ideologia da informação”; b) Os “poderes político-econômicos e a sociedade da informação”; c) O “novo mundo do Ciberespaço e das Redes”; d) Entre “a ideologia e a utopia”. Vê-se que a ideia de sociedade da informação surge em meio a uma profunda crise epistemológica, como fruto da pós-modernidade e do modelo de produção pós-industrial. É a principal marca para um paradigma dominante (SOUSA SANTOS, 2010) que surge para resolver aos vácuos deixados pelo positivismo universalista, determinista e cartesiano. Observa-se que a partir das críticas lançadas por Habermas em a “Teoria da Ação Comunicativa” frente a Cibernética Wiener e da Teoria Matemática da Comunicação de Shannon e Weaver, conforme explica (SERRA, 1998), abre-se espaço para idealizar uma sociedade pautada na transparência, democracia e dinamicamente sendo promovida por uma “ideologia da informação”, conforme indica (SERRA, 1998). Não é à toa que “o conhecimento e a informação tornam-se o verdadeiro motor da sociedade ‘pós-industrial […]”, fazendo dos “[…] cientistas as figuras centrais” (SERRA, 1998, p. 97-98). Mesmo em um contexto novo, a ciência nova (MORIN, ano) assume papéis antigos, no sentido de continuar se apresentando como sujeitos preponderantes frente às tecnologias de informação e comunicação e a ser serviço do poder. Com isso o “novo” com práticas “velhas” limitam a ideologia da informação de “uma sociedade mais equilibrada e igualitária”, conforme sonhava Serra (1998) em sua “informação como utopia”. Em meio aos múltiplos cenários de disputas pelo poder político face ao avanço fica cada vez mais difícil alcançar o estágio de sociedade da informação com o qual preconizada Serra (1998), que é era de “ser uma sociedade construída por todos […] e para todos, sem indivíduos ou grupos info-excluídos, garantindo a todos o acesso à info-alfabetização e à info-competência”, e assim, seria possível consolidar o surgimento de espaços virtuais construídos a partir de uma rede integradora de transformação humana.

Para o capítulo quatro, Serra (1998) analisa a ideia de uma “biblioteca universal e a partilha do saber”, focando os desdobramentos que ocorrem da: a) A “biblioteca virtual e a universalização do saber”; b) Uma “nova forma de aprender e ensinar”; c) As “novas condições de partilha do saber”. Parte-se da compreensão de uma biblioteca (ambiente) que é produto da rede e com a finalidade de contribuir para democratização e compartilhamento do saber. Isso se dá por considerar que historicamente o acesso ao conhecimento sempre foi disponibilizado a uma pequena massa populacional. Em um primeiro momento, aos nobres e ao clero, em outros a burguesia industrial, agora, aos representantes dos grandes conglomerados. Não é à toa que o jargão “informação é poder”, sempre fez parte, em maior ou menor escala dos mais diversos modos de produção, mas que atualmente tem se intensificado e aprofundado progressivamente em virtude das tecnologias de informação e comunicação. Segundo Serra (1998), “é certo que que ampliou poderosamente as oportunidades de acesso ao saber […] no entanto, limitações novas” têm surgido para, de alguma forma limitar o acesso ao conhecimento, ao menos da população mais empobrecida. Isso porque ao pensar um espaço “universal” em ambiente digital, deve-se considerar que todas as línguas, etnias, registros orais, formas de escrita, tipos de materiais, além de iniciativas de ações com vistas a info-inclusão por meio da info-alfabetização e info-competência digital sejam priorizadas. Assim, entende-se que, só existirá de fato a ideia de compartilhamento de um saber e uma biblioteca “universal” igualitária, caso exista políticas públicas de convívio com um ciberespaço considerando uma “aprendizagem permanente, aprendizagem auto-dirigida, aprender a aprender, aprendizagem contextualizada, aprendizagem adaptada às necessidades do aprendiz, aprendizagem transformadora, aprendizagem cooperativa e aprendizagem em tempo real […]”, conforme explica Barbara Lepani nas palavras de (SERRA, 1998, p. 130), caso contrário, “a informação pode produzir exatamente o contrário daquilo que se pretende: em vez de saber e conhecimento, ignorância e desconhecimento” (SERRA, 1998, p. 133), especialmente em países em situação de vulnerabilidade social, que não oportunizam a “garantia da diversidade linguística e cultural no seu seio” (SERRA, 1998, p. 144) e consequentemente da sua memória coletiva.

Ao que tange o capítulo cinco, Serra (1998) valoriza a reflexão a partir das “comunidades virtuais e a partilha do poder”. Nesta ele constrói um diálogo trazendo ao centro das discussões questões como: a) As “comunidades virtuais e a interação”; b) As “comunidades virtuais e a ação política”; c) O “Ciberespaço como espaço de controle”. Percebe-se que o autor irá fazer uma cuidadosa discussão no campo das comunidades virtuais. A partir da análise do autor, entende-se que é importante ter a percepção crítica e não romantizada quanto estes espaços que por sua vez, por um lado podem contribuir para o processo de comunicação e consequentemente de interação social a partir da rede, mas requerer um certo cuidado e precisará ser vista com uma certa cautela conjuntural, para que não se cristalize a ideia de um ambiente revolucionário de uma transformação cultural irrevogável e irretocável. Dito isso, as comunidades virtuais não podem ser vistas por um prisma “ingenuamente utópico” (SERRA, p. 148). A cautela sugerida pelo autor, ocorre tendo em vista que é preciso pensar as comunidades virtuais atreladas, complementares, ou seja, dialogando permanentemente às comunidades ditas reais para não incorrer no risco destas primeiras contribuírem “para isolar ainda mais os indivíduos em relação às comunidades” tradicionais “a que pertencem” (SERRA, 1998, p. 151). Este cenário se aproxima do Canclini (2015) chama de hibridismo cultural, possibilitando um imbricamento contínuo, cujo Serra (1998, p. 154) chamara de “fusão entre as comunidades reais e as comunidades virtuais”. Porém é preciso ter cuidado para que ideia primária de libertação e emancipação não caia na armadilha retórica da ideologia por afinidade de natureza, social, étnica ou outra. Em grande parte, as comunidades virtuais têm se mostrado como espaços exclusivamente ideológicos, construindo e configurando bolhas ou bolsões limitadores de interação social. Daí informação produzida nesses espaços virtuais com potenciais emancipatórios, estarão na prática se transformando em ferramentas para vigiar e punir, conforme trata Serra (1998) ao mencionar Michel Foucault. A exemplo disso está a intolerância cibernética. Em certa medida, vê-se que as comunidades virtuais excedem o propósito, se transformando em espaços de poder em detrimento da busca e compartilhamento do saber. Cria-se então as “sociedades de controle” que incorrem diretamente na “comunicação instantânea” (SERRA, 1998, p. 165), influindo profundamente na relação público e privado, o qual Serra (1998, p. 168) chama de “tensão”. Esvai-se aí a premissa de emancipação e uma razão dialética onde a informação deve servir a todos, sem distinção, consequentemente a informação enquanto objeto libertário e transformador, continuará sendo uma simples e mera utopia pós-moderna.

Portanto, conclui-se que de fato a informação é uma utopia e que a mesma está distante de ser um produto promotor da “igualdade, liberdade e fraternidade”, conforme era pensado com revolução francesa e que vem sendo constantemente perseguido pelo de Serra (1998) chama de novo iluminismo. É bem verdade que, a informação, deve ser concebida como um objeto estratégico de transformação, emancipação e inclusão da humanidade, reconhecendo-a inclusive como direito fundamental do cidadão. Ter acesso a informação é uma questão de cidadania e de competitividade mercadológica. Quando o Estado propõe ao cidadão o direito à informação atrelado do processo de info-inclusão, info-alfabetização e info-competência, de fato está se garantindo que se tenha uma população economicamente integrada as comunidades de inteligência que tem surgido por meio das tecnologias de informação e comunicação, até porque segundo Serra (1998, p. 170), a “sociedade da informação é uma invenção das grandes empresas transnacionais e dos governos que elas controlam de forma crescente”, especialmente aqueles que se dão por meio dos países desenvolvidos.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

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