Encruzilhada brasileira

por Mário Gaudêncio

Vivemos no Brasil um complexo momento de antagonismo nos mais diversos níveis, do Estado e das estruturas sociais. A cultura brasileira submergiu em uma área movediça que dificilmente será capaz de sair dela, seja porque o poder dominante não permitirá, seja pela ausência de mobilização causada pela despolitização, pós-verdade ou exacerbação polarizada a partir das relações de poder, que por um lado estão forças extremamente conservadores e por outro, uma ala progressista que não consegue se juntar em função de um único propósito.

O mundo líquido vem produzindo espaços de mal-estar, conforme é expressado por Zygmunt Bauman, que dialogando com o pensamento de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, vê-se que vivemos hoje uma hipermodernidade, refletindo em uma sociedade desorientada. Contudo, esse cenário apenas se fortaleceu em virtude do que o mundo neoliberal trouxe como pano de fundo para um modelo de produção pautado no mercado e a serviço dele. O atual momento capitalista traz como instrumento sedutor, a revolução técnica, científica e informacional, expressão criada para dois termos mais simples, a inovação e o consumo.

São símbolos vitais, reveladores de rupturas e de um reconfiguração cultural e social sem precedentes, especialmente porque este trufo é solidificado por um processo conhecido por comunicação de massa. A mídia, oriunda das grandes mídias, são ferramentas de apoio a manutenção do poder hegemônico, conforme vemos no pensamento de Antonio Gramsci, que por sua se consolida pelo que Pierre Bourdieu chama de poder simbólico. Mas esse nível de poder é viabilizado na prática através daquilo que Michel Foucault chamará de microfísica do poder. É um poder que se viabilizada a partir do local, das pequenas formas de força e na forma como as relações se estabelecem. Se cristaliza da forma mais simples possível, mas se propaga da maneira mais devastadora possível, especialmente quando as pessoas estão passíveis de manipulação e alienação.

E isso é um movimento transgressor em sua essência. Rompe o espaço e o tempo. Ratifica a ideia construída por Norbert Elias sobre a questão do tempo. E aí instaura-se o perigo, essencialmente para aqueles grupos sociais que tendem a cair no esquecimento social sinalizado por Paul Ricœur de uma determinada memória coletiva observado Maurice Halbwachs.

Infelizmente, caminhamos a passos largos para um amplo movimento de disputa onde o fator conciliador está se distanciando diariamente, onde o diálogo dos opostos e do contraditório, aspectos extremamente importantes de uma democracia, vão ficando em segundo plano e conduzindo o país para uma condição segregadora. O termo “separar” começa a se sobrepor a “juntar”, a “agregar” e a compartilhar.

Assim, estamos vivendo em ilhas e bolhas, isoladas de redes proativas e a margem de uma sociedade que deveria ser legítima, especialmente por suas raízes oriundas da pluralidade e forjada sob as marcas da diversidade, mas contraditoriamente se coloca em uma posição  étnica inexistente, onde muitos vão renegando o seu próprio grupo, esquecendo o sentido de pertença e relegando aos outros a ideia de pertença social e cultural, ou até ecoando o discurso de que, “se não ame, deixe”, para assim “engrossar o caldo” da indiferença e rumar a um nacionalismo absolutista destruidor e simbolicamente massacrante, seja por qual for o prisma da leitura que queiramos fazer.

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