Esquecimento cultural: o Museu Nacional é a ponta do iceberg

por Mario Gaudêncio

Historicamente a cultura sempre foi relegada a segundo plano, seja por meio das suas políticas públicas ou através dos seus direcionamentos enquanto valorização às suas práticas.

O Brasil é um país pluricultural, mas que em essência suas maneiras de expressão, quando não são do interesse do poder hegemônico e da comunicação de massa, tende a cair em um silenciamento e consequentemente em um potencial esquecimento direcionado e proposital.

Vale salientar que, o que vivenciamos hoje de prejuízos à cultura brasileira, são acontecimentos que desdobraram por meio de uma complexa rede de inaptidão política e administrativa, aliado ao plano de deixar na penumbra tudo o que é originariamente nascido no Brasil.

Desde a ocupação do Brasil em 1500, que a prioridade é valorizar e importar o que vem fora ou ir em busca dos valores aos grandes centros além-mar. Foi assim no período colonial, no momento da velha e da nova república, na ditadura militar, na redemocratização após 1984 com as Diretas Já, com a abertura comercial a partir de 1992 e por com o início do século vigente.

O que foi a Semana de Arte Moderna de 1922, o Tropicalismo e o Movimento Armorial no Brasil? Em síntese, foram movimentos que lutaram pela valorização da cultura nacional.

Década após década, o Brasil sempre relegou a cultura nacional a poeira e ao pó, ou seja, a quase nada em termos importância da sua materialidade. Isso não é diferente com os equipamentos culturais, todos em essência são relegados aos “porões” da política cultural.

Os últimos anos tem sido prova disso, de um Estado que não está minimamente preocupado a sua própria memória social e que seus lugares de memória não são importantes para o desenvolvimento da nação. Quanto tempo faz que o Butantã foi incendiado? E o Museu da Língua da Língua Portuguesa? Agora, tudo é reverberado também no Museu Nacional?

Um dos mais importantes equipamentos culturais do Mundo vai ao chão! Simbolicamente, poderíamos comparar a queda do Museu com declínio da democracia e cidadania brasileira vigente, onde o Estado vai ao mesmo tempo, jogar por terra a célebre expressão terminológica de que o governo é feito e deve estar a serviço do povo.

O Direito a cultura é uma prerrogativa inalienável é fundamental instituída na Declaração Internacional de Direitos Humanos e ratificada pelo Brasil através da Constituição de 1988. É dever do Estado e direito do cidadão ter as suas manifestações culturais preservadas, assim como ter acesso a fruição, lazer e entretenimento à equipamentos culturais que contam garantem viva a história evolutiva do seu povo.

Se por um lado é triste saber que as pessoas visitaram mais o Museu do Louvre do que o Museu Nacional do Brasil, por outro, isso é reflexo da ausência de políticas públicas de valorização do patrimônio material e imaterial e em virtude de haver no Brasil um movimento contínuo de aprofundamento de minimização do sentimento de pertença e identidade cultural.

Adiciona-se a isso o sentimento eurocêntrico e estadunidense de parte da população que detêm o capital e que reverbera às classes empobrecidas por este poder hegemônico. É o mesmo grupo patriarcal e secular é contra a imigração dos povos vizinhos em situação de vulnerabilidade social, mas é favor de emigrar aos países da Europa e da América do Norte, relegando aos empobrecidos desigualdade e exclusão social. A estes o Brasil serve apenas para expropriação de suas riquezas.

Essas são algumas das posturas e práticas culturais que estão nesse emaranhado, nesse caldo cultural conflituoso entre “incluídos” e “excluídos”.

Portanto, infere-se que o caso do Museu Nacional é potencialmente apenas a ponta do iceberg de um problema cada vez mais difuso e líquido deste mundo pós-moderno onde o livre mercado dita as regras do jogo. Isso tudo que vemos atônitos é o reflexo de um projeto de Estado que tentará se perpetuar no poder nos próximos 20 anos, tendo um dos princípios básicos, a desvalorização da cultura em todas as suas dimensões.

Com esta última tragédia cultural, abre-se espaço para o fortalecimento da luta em defesa da cultura, através dos seus lugares de memória, com olhares mais lúcidos críticos, pensando-os como ecossistemas culturais estratégicos de desenvolvimento social, cultural, informacional e memorial.

É muito mais barato ao Estado investir em uma democracia participativa e uma cidadania ativa por meio da sua dinâmica e práticas culturais do que em gastar dispendiosamente em regalias que não contribuem em nada para solidificação de um povo, que a este chamamos de Brasil.

Ficarei intensamente torcendo para que esta lista de crimes culturais tenha acabado, pois tenho que receio dê se tenha sequência ao que conhecemos hoje por Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, IBRAM, IPHAN, a Fundação Joaquim Nabuco, Fundação Casa de Rui Barbosa, Bibliotecas, Museus e Arquivos nas suas mais diversas naturezas, dentre outros inúmeros equipamentos culturais que podem se tornar vítimas do esquecimento cultural brasileiro, seja em nível federal, estadual ou municipal.

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