Demonização da esquerda brasileira

por Mário Gaudêncio

Etimologicamente segundo o dicionário Infopédia (2018, online), demonizar significa “transformar em demônio, transformar em algo nefasto ou considerar diabólico”. Coadunando com esta assertiva, o dicionário Michaelis (2018, online), o termo refere-se a “dar características demoníacas ou (sic) transformar(-se) em um ser demoníaco”.

O processo de demonização à esquerda brasileira ocorre a muitas décadas. Para não irmos muito distante no período temporal, a de se lembrar das lendas urbanas que diziam, por exemplo “Comunista come criancinha” ou “Lula vai pintar a bandeira do Brasil de vermelho se vencer as eleições de 1989″ (BLOG DO CADU, 2014, online).

Eu, quando criança morria de medo desses discursos que propagados de maneira indiscriminada pela população, especialmente àquela mais humilde, sem contar que nesse período não havia os recursos tecnológicos que temos a disposição hoje para confrontar discursos e notícias a fim de saber de são notícias falsas (fake news) ou fatos que tratem da verdade.

Ao longo dois anos, especialmente a partir da suposta redemocratização, que foi simbolicamente marcada pela publicação da Constituição de 1988. É bem verdade que a Carta Magna permitiu avanços no que diz respeito às relações institucionais e a abertura para o diálogo livre e o favorecimento de práticas sociais e culturais silenciadas cerca de 20 anos. Porém lacunas ficaram abertas e fissuras não foram fechadas, como o indulto dado aos líderes da ditadura e desrespeito promovido aos familiares das pessoas que foram exterminadas sem direito a defesa.

Nesse período, todas as pessoas que contrárias ao regime foram “separadas” da sua pátria, seja através do poder simbólico (BOURDIEU, 1989) ou do poder físico. Vale a pena lembrar do slogan, “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Isso lembra em certa medida o que se houve hoje do senso comum como, “Vai para Cuba!” ou “Vai para Venezuela!”. É como se Brasil não fosse um país para pessoas que pensam diferente àqueles que são das classes abastadas ou dos outros que são marginalizados por estas classes, mas tendem a ser prestadores de serviços, como serviçais ao poder econômico e ao poder institucionalizado.

Ser de esquerda no Brasil na condição de Ser pensante sempre foi um problema, pois para muitos, enquanto essas pessoas existirem, haverá uma ameaça na forma de conduzir o país. Quando o discurso político, influenciado pelo poder econômico e através da indústria cultural afirmava que jamais uma pessoa sem diploma ou uma mulher teria condição de ser presidente do Brasil sem ao menos explicar os motivos, e mesmo que tivesse, vivemos em país que tem como condição fundamental a democracia, e com ela a liberdade de expressão.

Mesmo assim, a grande massa populacional, sem refletir as imposições que são colocadas, vai apenas absorvendo e reproduzindo de maneira passiva o que os meios de comunicação de massa afirmam ser correto saber. Quantas pessoas pararam para refletir se o que a velha mídia diz é de fato verdade? Parece que fake news é um fenômeno novo, mas infelizmente não é! Na verdade o que temos de novidade são as tecnologias oriundas do ciberespaço que adentram ao mundo atual sem pedir licença e oportunizam de alguma forma o contraditório, mesmo que muitas vezes esse processo ocorra de maneira enviesada.

Para Bauman (1998) a pós-modernidade causa diversas formas de mal-estar, que termina deixando a “sociedade desorientada”, conforme explicita Lipovetsky e Serroy (2011). Isso em essência, é um fenômeno que eco nas novas mídias a partir das velhas, e vice e versa, em virtude de um processo conhecido por convergência de conteúdo, conforme entende Jenkins (2009). Na prática, o mesmo conteúdo estará disponível em todos os lugares e ao mesmo tempo. E mais, o usuário, atualmente chamado de “interagente”, muitas vezes acrítico, começa a fazer o jogo de quem tem o poder de supostamente “informar”.

Pierre Bourdieu (1997) observa na obra “sobre a televisão” que há uma censura invisível que pode ocultar mostrando. Há uma força de banalização tão imensa que a influência da televisão chega a construir o que Baudrillard (2003), chamará de a conjuração dos imbecis.

Vejamos que a todo o momento somos usados como instrumentos de manipulação e controle, onde abrimos mão de pensar criticamente a quem interessa os discursos que produzidos a todo momento, direcionados a nós com um profundo apelo emocional, fazendo com que compremos e consumamos qualquer produto e a qualquer hora, sem ao menos fazer a leitura do rotulo. A de se esperar para não ser veneno, mas se caso for, será chegado o momento de partir para o além!

Desta maneira, nós somos induzidos a todo momento a introjetar a “síndrome do papagaio”. Apesar de construirmos a ideia de que somos livres, na prática somos meros instrumentos reprodutores do discurso alheio.

Entendendo isso, talvez compreendamos como estamos suscetíveis absorver tudo sem nenhum tipo de filtro. Quando se tem uma sociedade que está imersa nos mais diversos tipos de desigualdades e condições de vulnerabilidades sociais, aliado a um amplo contexto de desmobilização e despolitização, abre-se a brecha necessária para que o processo de manipulação e alienação ocorra. Tudo fica imensamente mais fácil de ocorrer.

Daí os metadiscursos são construídos e as metanarrativas são viabilizadas entre o poder dominador e os dominados e encarcerados cognitivos. Dessa maneira, “demonizar” é um processo simples de se efetivar.

É possível observar que os discursos construídos por uma elite escravocrata, conservadora e preconceituosa sempre foi dissimulado, foi assim antes e durante os governos democráticos de esquerda, mas também continua sendo assim atualmente. Foi antes para não permitir o acesso e para não quebrar a lógica do apartheid social instaurado no Brasil desde 1500. Foi assim durante por se perceber que os empobrecidos tinham começado a fazer parte da agenda do Estado. Está sendo assim agora porque é um descalabro ter tanta gente começando a pensar a ascender das classes E e D para estratos sociais com melhores oportunidades de vida.

 Alguém pode chegar e dizer: O problema é a corrupção! Então eu poderia inferir que um partido com inúmeras pessoas, políticos partidários, militantes e simpatizantes cometeram irregularidades ao mesmo tempo? Se você disser que sim, eu digo irei concluir que seria um processo orgânico e deliberado! Seria isso? Todos, de maneira irrestrita, são corruptos? Ninguém escapa? Você já chegou a pensar nisso?

Em todo e qualquer ambiente organizacional, seja ele qual for, existem pessoas suscetíveis a passíveis a cometer falhas, mas isso não quer dizer que toda equipe seja igual e pratique os mesmos atos. Não se pode nivelar por cima erros de uns com vistas a prejudicar todos de forma irrestrita e irresponsável.

O antipetismo, por exemplo, é oriundo disso. Tentou-se a todo custo marginalizar, criminalizar e demonizar um partido e milhares de filiados e simpatizantes que carregam consigo a marca da estrela vermelha, a pagar por erros de um pequeno grupo de pessoas, se comparados com a maioria.

Foi produzido discurso frágil que em qualquer sociedade mais politizada ele não teria espaço, tão pouco teria sido comprado de maneira tão fácil. O povo foi envenenado por um discurso que levou não apenas a refutar o óbvio, mas permitiu ao Ser brasileiro a tirar o armário o sentimento de ódio que sempre esteve guardado esperando uma pequena oportunidade de sair e transformar a civilização em barbárie.

Portanto, com isso vê-se que os maiores erros da esquerda brasileira representadas pelos seus respectivos partidos, além dos atos de improbidade, foi o fato de não ter sido construído um projeto de longo prazo com vistas a trabalhar desde a mais tenra idade, os princípios de política participativa e de cidadania ativa. Se isso tivesse sido feito, essa massa populacional que entrou na “dança das cadeiras” da intolerância humana e intelectual, não teria absorvido tão fácil tudo o que vem ocorrendo com o Brasil em termos de retrocesso institucional e social. Vale salientar que adicionado a isso estão o descolamento dos governos petistas aos movimentos sociais nos últimos anos de gestão e as alianças degeneradas em nome da chamada governabilidade, especialmente no primeiro governo.

REFERÊNCIAS

Blog do Cadu | disponível em

Blog LN | disponível em

Brasil 247 | disponível em

Dicionário Infopedia |  disponível em

Dicionário Mchaelis | disponível em

Jornal GGN | disponível em

Observatório da imprensa |  disponível em

O Globo |  disponível em

Público | disponível em

Revista Cult | disponível em

Revista Fórum |  disponível em

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