O que é cibercordel

Editado por Mário Gaudêncio¹

O folheto tem proporcionado profundas ressignificações artísticas capazes de colocar o cordel como uma referência na cultura brasileira, formando novos produtores, autores e um público consumidor cada vez mais diversificado. Isso é possível de perceber, por exemplo, através das artes plásticas, artes cênicas, da literatura, da música e da internet.

No caso da internet, esse processo de ressignificação poética tem ocorrido em toda estrutura web, seja por meio de sites, portais, das mídias sociais ou da blogosfera, esta última a maior e mais forte fonte de divulgação e disseminação da informação poética do cordelista. Isso faz com que as temáticas, ou mesmo os motes, estejam transitando e emergindo em outros suportes que não sejam exclusivamente os folhetos impressos.

Ao tentar apresentar o cordel nos dias atuais, convém antes entender a necessidade de observar os espaços nos quais estão inseridos e foram consolidados.

Mesmo os autores respeitando a métrica e a rima, hoje podemos encontrar estabelecidos três formatos de cordéis: impresso, digitalizado e digital.

O primeiro é conhecido como “folheto de cordel”, “folheto” ou “cordel”, que são textos produzidos em folhas impressas, normalmente com tamanho 11×16 cm, utilizando papel jornal, tendo suas capas xilogravadas em talhas de madeiras ou metodicamente idealizadas por meio da computação gráfica. Tem como autores potenciais, em sua maioria, pessoas semialfabetizadas e que, em muitos casos, sobrevivem em função das produções poéticas. Na visão de Nascimento (2011)

[…] o folheto de cordel – é um produto que se situa contiguamente entre a oralidade e a escrita, representa, numa grande faixa de produção, a fusão de três componentes: 1) O texto oral, tradicional, guardado na memória do poeta/narrador, com vida milenar ou mesmo relativamente recente, aceita pela tradição; 2) A notícia do acontecido, um aproveitamento imediato do fato cotidiano; e 3) O trabalho do xilógrafo, que apresenta, no pequeno espaço da xilogravura, a sua visão, o seu ponto de vista do universo do folheto e que passa a integrar-se à obra literária, ligados intrinsicamente pela semântica do texto. (NASCIMENTO, 2011, p. 225).

Contudo, nos últimos anos, em função da cibercultura, da sociedade em rede e da blogosfera, houve uma mutação iniciada com o hibridismo da transposição do impresso para o eletrônico.

Neste cenário de transposição em relação ao suporte, já são vistas algumas iniciativas que disponibilizam, na web, dois outros traços bem definidos de cordéis na rede. Um é o cordel digitalizado, fruto da transposição do impresso para o eletrônico. O outro pode ser definido como o cordel que é exclusivamente virtual e produzido por meio de posts (texto, imagem, áudio ou vídeo), sob a estrutura do ciberespaço e aproveitando toda uma dinâmica da forma como a sociedade em rede se organiza. Surge, então, o cibercordel.

O ciber-cordel [sic], nesse sentido, constitui-se como a sinergia entre as formas de narrar do cordel com a interatividade e conectividade desterritorializada e simultânea do ciberespaço. É, dessa forma, um cordel produzido em rede, impondo a autoria coletiva como forma de produção da obra. O ciber-cordel (sic) não é, portanto, a simples transposição do cordel feito off-line para o nível on-line. Além disso, é a efetivação de uma obra de literatura popular em verso sob as possibilidades de comunicação horizontal e simultânea que a plataforma comunicacional do ciberespaço oferece. (SOUSA, 2007, p. 6, grifo nosso).

Após surgir o cordel eletrônico, conhecido e definido embrionariamente de cibercordel na primeira década do século XXI, observa-se que estes,

[…] incorporados pela Internet, os cordéis adquirem característica de hipertexto, e passam a ser reconhecidos pelo nome de “cibercordel” que é uma forma de cordel que incorpora as mídias oferecidas pela web. Além de estar no ciberespaço, é um hipertexto que utiliza os recursos da web, como animações, podcasts, links, comércio online, etc. (FONSECA; ALVES; CAVALCANTE, 2010, p. 7, grifo nosso).

Utilizando como parâmetro o posicionamento acima e relacionando com os postulados da Ciência da Informação, percebe-se que o cibercordel encontra amparo acadêmico nos postulados de Rafael Capurro, especialmente com base nos seus paradigmas, que trazem à tona os aspectos físicos, cognitivos e sociais.

Para Capurro (2003, p. 8), o paradigma físico “[…] em essência […] postula que há algo, um objeto físico, que um emissor transmite a um receptor.” Esse objeto que é emitido nesse contexto é o cibercordel. O mesmo não só transita de forma dinâmica na relação emissor e receptor, mas também vai além. Na maioria das vezes essa informação transmitida é realimentada, proporciona de forma quase que imediata um feedback. Tem-se, assim, uma informação que é exclusivamente virtual, e enquanto objeto físico promove uma prática cíclica entre o processo de recepção e mediação poética.

No que diz respeito ao paradigma cognitivo, Brookes (apud CAPURRO 2003, p. 10) observa que este modelo acontece por meio dos “[…] conteúdos intelectuais que formam uma espécie de rede”. Para o mesmo autor, é necessário também, “[…] ver de que forma os processos informativos transformam ou não o usuário […]”, o sujeito cognoscente. Percebe-se, em virtude deste posicionamento, que o cibercordel não pode ser visto apenas como um “objeto insignificante”. É preciso que seja percebido como uma linguagem informacional de densidade de conteúdos singulares, fruto do processo de idealização, pensamento e construção intelectual que geram não apenas poesias, mas em especial informações configuradas através de cenários, casos, vivências ou relações sociais. Podem ter sido concebidas, por certa medida, de forma individual ou influenciada por agentes ou ambientes de sua área de domínio ou até externas a elas. Essas idealizações intelectuais particulares por influências avessas proporcionam novos cenários e conjunturas das mais díspares e inesperadas fazendo com que a realimentação literária transforme as relações entre o autor (cordelista) e o leitor (usuário e receptor). Deste modo, a partir do momento que a informação poética é disseminada, aquele que poderia ser apenas um leitor, também poderá assumir o papel de escritor, autor, comunicador ou blogueiro. A informação poética circula através do blogueiro primário, contudo, possibilita a terceiros também terem crédito sob a obra, pois a mesma, ao ser comentada e muito provavelmente até reescrita, produzirá uma poesia popular híbrida fazendo com que o texto seja ressignificado a todo o momento e tornando o processo cognitivo único, algo vibrante e de fato poético, sem limites ou barreiras para trabalhar os conteúdos intelectuais na web.

Para o paradigma social, Capurro (2003, p. 14) comenta que esta dimensão deve ir “[…] para além do conhecimento humano, relacionando-o a todo tipo de processo seletivo […]”. Percebe-se então que este último paradigma também dialoga com a poética criada em torno das relações culturais e sociais e pode estar diretamente inserido no contexto dos cibercordéis, não apenas pela sua configuração, mas em especial pela forma como estes textos informacionais são produzidos, por quem são idealizados, assim como, como são escritos e interpretados. O habitat no qual os cibercordéis transitam, favorecem relações além da sua própria área de domínio, possibilitando o diálogo, criando e promovendo relações sociais com outros. São produções horizontais que se dão de dentro para fora e de fora para dentro (input e output), numa relação contínua e adaptável. O conhecimento humano produzido pela via do cibercordel se entrelaça naturalmente em teias complexas. Isso fica nítido na relação emissor e receptor. Capurro (2003, doc. não paginado), por sua vez, chama isso de informação que deve “[…] entrecruzar ou, por assim dizer, enredar ou tramar […] mostrando a tessitura complexa da linguagem comum […] em torno […] de sua relação com a realidade social e natural”.

Diante disso, o cibercordel sob a perspectiva da Ciência da Informação é todo e qualquer objeto informacional amparado pelas regras poéticas construídas através do clássico cordel e produzido exclusivamente na internet. Sua construção, independente do momento, será materializada sob um esteio físico, cognitivo e social.

Sua exclusividade virtual permitirá produções poéticas através de postagens ou publicações que possibilitem comentários, imagens, áudios, vídeos ou qualquer outro tipo de manifestação pública, anônima ou identificada sob a estrutura do ciberespaço e aproveitando toda dinâmica e hibridação da forma como a sociedade em rede se organiza. São percebidos que os ciberespaços que melhor acolhem os cibercordéis são os blogs; ambientes adaptáveis, personalizados, de fácil acesso, utilização e comunicação.

Dois outros fatos que estão por trás desta nova forma de escrever a poesia popular é a elevação do nível de formação acadêmica dos poetas e o alto grau de rapidez no processo de mediação informacional e formação potencial de um novo público leitor.

Esta conjuntura poética faz do folheto um artefato de ressignificação informacional e memorialista que viabiliza uma percepção multifacetada, tanto para o produtor quanto para o consumidor ou leitor de poesia popular. Entretanto, o processo de ressignificação do cordel não se deu exclusivamente através dos cibercordéis, tampouco iniciou com eles. Pelo contrário, desde o século XX, em especial a poesia popular, tem passado por diversas transformações literárias, sejam por incorporar novos elementos às suas concepções, como tipologias de capas, criptografias por meio de acrósticos, ou surgimento de poetas das mais diversas classes sociais. Isso proporcionou à literatura de cordel influenciar e transitar por diversos “mundos” poéticos e literários, fazendo com que se tenha atualmente consolidado esta nova forma de fazer cordel a partir da internet, ou seja, o cibercordel, sem ser necessariamente um “neocordel” como tem sido propagado por um pequeno grupo da poesia popular. O fato é que se consolida apenas o surgimento de uma nova forma de escrever e registrar a poesia popular, o cibercordel. Mesmo assim, apesar dos cibercordéis serem produzidos na internet, todas as características básicas do cordel impresso são preservadas (técnica, concepção, poética, temática, etc.). As ressignificações que buscaram e buscam apoio ou inspiração na literatura de cordel se dão, muitas vezes, com base nos motes que “iluminam” a escrita dos folhetos pelos poetas de bancada ou cordelistas.

Percebe-se que, ao longo de mais de um século, o cordel tem se inspirado em vários motes e que, dependendo das temáticas abordadas, os cordelistas eram até conhecidos como poetas-repórter. Um dos mais famosos é o José Soares, que ficou conhecido pelo cordel sobre a morte de Getúlio Vargas, em 1954, com tiragem de 100 mil exemplares. Isso para dizer que nenhum assunto escapa para ser tema de um cordel (O CORDEL…, 2003, doc. não paginado).

Todos os assuntos são de interesse do cordelista, poeta de bancada ou poeta-repórter. Os temas que inspiram os poetas foram reclassificados recentemente em pesquisa doutoral, num total de 27 (vinte e sete) classes temáticas, quais sejam: (1) Agricultura; (2) Biografias e Personalidades; (3) Bravura e Valentia; (4) Cidade e Vida Urbana; (5) Ciência; (6) Contos; (7) Crime; (8) Cultura; (9) Educação; (10) Esporte; (11) Erotismo; (12) Feitiçaria; (13) Fenômeno Sobrenatural; (14) História; (15) Homossexualismo; (16) Humor; (17) Intempéries; (18) Justiça; (19) Meio Ambiente; (20) Moralidade; (21) Morte; (22) Peleja; (23) Poder; (24) Político e Social; (25) Religião; (26) Romance; (27) Saúde e Doença. (ALBUQUERQUE, 2011).

A partir disso, percebe-se o quão imensas são as possibilidades de escrever textos sob as mais variadas temáticas. Os textos produzidos nos folhetos conseguem descrever realidades, fatos históricos, retratar personalidades, motivar o ativismo ambiental, entre outros.

Portanto, o cenário demonstrado nesta cessão leva a poesia popular a uma “Virada Cordelista”, ou seja, a uma mudança na forma de conduzir a literatura de cordel, retomando o seu curso normal a partir do declínio pós 1950, abrindo novas possibilidades de produção, divulgação, acesso, pensamento, reorganização, postura, espaços, enfim, de um realinhamento que se aproveita da inserção do cordel no ambiente escolar, das novas descobertas científicas e da adoção da internet como forma comunicar o cordel, descobrir novos poetas e de preservar a sua memória coletiva.

¹ Recorte extraído do artigo “Representação semântico-discursiva de cibercordéis”, escrito por Mário Gaudêncio e Maria Elizabeth Baltar Carneiro de Albuquerque na Revista Em Questão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2017.

REFERÊNCIA

GAUDÊNCIO, M.; ALBUQUERQUE, M. E. B. C. de. Representação semântico-discursiva de cibercordéis. Em Questão, Porto Alegre, v. 23, n. 1, jan./ abr. 2017.  Disponível em: https://goo.gl/SuQvuZ>.

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